Estudo revela perfil de pacientes com diagnóstico tardio de HIV em Porto Alegre

Um estudo realizado em Porto Alegre, publicado na revista Aids Research and Treatment, revela que homens e mulheres heterossexuais, muitos deles casados e com filhos, são os mais afetados pelo diagnóstico tardio de HIV. A pesquisa analisou prontuários de 407 pacientes diagnosticados entre 2015 e 2024 no Hospital Conceição, destacando a necessidade de uma abordagem mais inclusiva nas estratégias de testagem.

Os dados mostram que 49% dos pacientes diagnosticados são homens heterossexuais, com uma média de idade de 42 anos. Desses, 84,7% estão empregados, 59,5% são casados ou têm parceira fixa e 71,7% têm filhos. Já as mulheres, que representam 35% da amostra, têm uma média de idade de 44 anos, com 47,1% desempregadas ou aposentadas. Entre elas, 39,6% são casadas ou têm parceiro fixo e 80,7% têm filhos.

Baixa percepção de risco e estigma como barreiras

O estudo aponta que apenas 24% dos pacientes apresentavam fatores de risco conhecidos, como uso de drogas ou histórico de prisão. A pesquisa não identificou uma causa específica para o diagnóstico tardio, mas sugere que a combinação de baixa percepção de risco, estigma e barreiras de acesso ao diagnóstico podem ser fatores determinantes. O infectologista Pedro Moreno Fonseca destaca que a percepção de baixo risco pode levar pessoas em relacionamentos estáveis a não buscarem a testagem.

Fonseca também menciona que o estigma em relação ao HIV pode dificultar discussões sobre a vida sexual durante consultas médicas, resultando em oportunidades perdidas para a testagem. Ele relata casos de mulheres mais velhas que descobriram ter HIV durante investigações de outras condições de saúde, evidenciando a falta de consideração sobre a sexualidade em idades mais avançadas.

Dados alarmantes e a necessidade de testagem ampliada

Entre 2015 e 2024, o Rio Grande do Sul registrou 51.102 diagnósticos de HIV ou Aids, segundo o Ministério da Saúde. Apesar de uma queda nacional de 13% nos óbitos por Aids, Porto Alegre continua a apresentar a maior mortalidade entre as capitais. O professor Eduardo Sprinz, da UFRGS, ressalta que as pessoas que não se sentem em risco são as mais suscetíveis à infecção, reforçando a necessidade de uma abordagem que não limite a testagem a grupos considerados vulneráveis.

Tratamento e prevenção: a importância do diagnóstico precoce

Pessoas diagnosticadas com HIV podem iniciar tratamento antirretroviral, que é oferecido gratuitamente pelo SUS. O tratamento adequado pode reduzir a carga viral a níveis indetectáveis, permitindo a recuperação do sistema imunológico e evitando a transmissão do vírus. Os autores do estudo defendem a ampliação da oferta do teste de HIV na rede de saúde, utilizando o modelo “opt-out”, onde o exame é realizado a menos que o paciente se recuse.

O teste rápido de HIV é gratuito no SUS, e o acesso deve ser facilitado para que mais pessoas possam se testar. A abordagem deve incluir a educação sobre a transmissão do HIV e a importância da testagem, independentemente do perfil de risco.

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